sexta-feira, 25 de novembro de 2011


Viajar até ao nordeste transmontano sublinha a máxima popular “o bom filho à casa retorna”… Uma casa da qual nunca se parece ter saído, tal é generosa recepção!  Esta região é um dos melhores exemplos da arte de bem receber! Marca de identidade tão “nossa” e genuína… A mesa aguarda: “façam o favor de se servir!” E sem cerimónias que os paladares aguardam a fusão dos sabores!
Em tempos de crise é preciso mais do que nunca combater as grandes assimetrias do país e reduzi las a todo o custo, no entanto, quase que como “provocação” as diferenças simbolizam o grande “trunfo” cultural de um Portugal tão pequeno mas tão majestoso na sua variedade cultural! Enquanto GIR trabalho arduamente para as conservar, ou melhor, para as transmitir a quem por nos se encanta!



Chegados a Trás-os-Montes, somos assaltados por uma sensação de isolamento que nos delicia pelo seu “q” de liberdade! Mas nem sempre a sua população convive da melhor forma com este distanciamento…O envelhecimento da população é um problema que a todos preocupa embora encante os forasteiros que como nós se rendem à sabedoria popular que emana deste povo! Esta disparidade está presente nesta região que não deixa ninguém indiferente e que a todos apetece um dia voltar!

Crescida e criada em ambientes urbanos, fico sempre particularmente emocionada com as belíssimas aldeias que o país ainda mantém e por rotas transmontanas Romeu, no distrito de Bragança, é uma delas!
Romeu de Jerusalém é uma aldeia com origens remotas, que está situada em domínios que em tempos pertenceram à Ordem do Hospital de São João de Jerusalém.
No século XIX, Clemente Meneres, negociante de vinhos e cortiça de Terras de Santa Maria, assinala a sua presença na aldeia a propósito da aquisição de terrenos para a expansão dos seus negócios.


 
O Negócio não poderia ter sido mais proveitoso para a aldeia que conquistou o seu mais notável anfitrião!
Toda a dinâmica da aldeia gira em volta desta lendária família que a acabou por aqui fundar a Quinta do Romeu, onde plantou vinha e olivais e instalou uma fábrica de rolhas.
A invulgar preservação que apresenta hoje a aldeia de Romeu de Jerusalém deve-se, pois, em grande parte a esta família.
Da grande obra social que empreenderam ao longo dos anos para o bem-estar da região, uma das que mais contribuíram para combater o isolamento a que a região está sujeita foi a contribuição para a instalação do caminho de ferro, tendo contribuído de forma decisiva para a aprovação da construção da Linha do Tua até Mirandela, e, depois, foi em grande parte graças ao clã dos Meneres que foi decidida a expansão da linha até Bragança, passando, precisamente, pelas suas terras da Quinta do Romeu.


Em 1874, existia uma estalagem onde Clemente Menéres se tinha alojado e comido ao chegar pela primeira vez à aldeia, e que era então gerida por uma senhora de nome Maria Rita. Eis o prólogo do restaurante Maria Rita, dinamizado por Manuel Menéres nos anos 60 do século XX.

O restaurante empenha-se na preservação tradicional do sabor sendo um dos muitos “cartões de visita” de Mirandela!  Um local onde nenhum detalhe é descurado e onde cada canto, cada mesa ou angulo nos brinda com um serviço tradicional que preserva tradicionalmente o sabor de décadas a fio! A ementa revela o que de melhor a gastronomia transmontana tem para oferecer: açorda de espargos bravos, bacalhau à Romeu, feijoca à transmontana, alheira caseira na brasa, bifinhos na caçarola ou sopa seca. Tudo regado com muito azeite, naturalmente.


Azeite que é outro ilustre produto da terra “ considerado pelo L’ Extravergine – um guia italiano de azeites – como o melhor do mundo na elaboração sob o método tradicional, com lagar de prensa. “Puro com deus o deus” imunda as iguarias da região com um sabor leve doce amendoado de azeitona fresca e verduras variadas!

O Museu das Curiosidades não se deixa ficar para trás na disputa do protagonismo da aldeia! Exibindo um espolio muito curioso que reúne peças desde finais do século XIX e princípios do século XX, bem preservada e organizada, onde poderá ver desde caixas de música, as primeiras máquinas fotográficas, projectores de cinema, telefonias, carros de cavalo, bicicletas, biciclos e alguns carros antigos, entre eles um primitivo carros dos bombeiros ou um Ford T de 1909.
Em jeito de despedida não esquecer de passar na Loja do Romeu que para além do vinho e do azeite, também oferece compotas artesanais ou alheiras especiais de azeite biológico. Presentes de Natal que farão o maior sucesso… e trazidos directamente da aldeia!
Aguarda-me agora o regresso, com calma focada nas mudanças que surgirão na paisagem… e já em pleno “spleen” fica a promessa do regresso para novos trilhos certa que "se para da Marão mandam os que estão", os que para do Marão aqui vão maravilhados ficarão!